quarta-feira, 10 de março de 2010

[DESOBJETOS]

capa desobjetos

Não me lembro quem acreditou e sempre espalhou que poesia não vende. Pode até não vender, se comparada a comercialização de grandes best-sellers, mas que é muito lido, lá isso é!

Antes de gostar de Monteiro Lobato e Pedro Malazartes, foi na poesia de Fernando Pessoa, que eu aprendi a apreciar o que era bom.

Confesso que há muito tempo, não caia nas minhas mãos, um livro de poesia tão ‘sensível’, tão ‘simples e ao mesmo tempo denso’

 

Esta poesia particularmente, de Fabiana Turci me encantou:

 

CORREDOR

Para ler um livro, um não-lugar:

passagem.

O melhor de um livro é deixá-lo.

(como o corredor

que leva à casa)

Para a espera,

um entre-lugar.

(espaço entre o quarto

e a porta)

entre o que é,

e o que é, ainda.

Para toda a dor

esta incrível habilidade

de para nada servir

e, ainda assim,

ser um caminho.

 

Quer coisa mais singela?

Esta é a estreia de Fabiana Turci na literatura.   Prova que ao evocar as coisas, as suprime, com este livro que se constrói a partir da afirmação de que a linguagem pode sim, ser poética e singela, através da subjetividade.

Prefaciado pelo escritor Menalton Braff, "Desobjetos" atinge o esmorecimento entre o verso e a prosa, fazendo um percurso que vai do livro à densidade do papel. Como um centro de onde se irradiam e se recebem significados, está ofertada a chave, que deixa ao leitor a porta aberta e permite-lhe compreender "o quanto a queda é o movimento mais importante para o indizível".

O livro de Fabiana propõe um caminho para a ausência, a princípio muito íntimo, quase um varal "feito para pendurar intimidades". Depois de passar pela dobra da orelha, onde há um poema feito para receber o leitor, deparamo-nos com o primeiro desobjeto: o livro. Ele se oferta em nossa mão como se suas páginas "soubessem do fim de um segredo". E estão no campo da intimidade os objetos que se seguem (varal, meia, pedra, vela, entre outros). A dimensão íntima deles descobre-lhes feições e usos insuspeitos.

No centro dessa viagem, encontra-se a chave que abre a porta ao outro. Olhos outros; alteridade que dá ao eu lírico "todo o pensamento do exterior". A figura do fora que a autora encontra, logo no início da segunda parte desse percurso, é o lápis. Esse desobjeto que tem "ânsia em propor o intraduzível" e existe para expressar o que é exterior, em um diálogo e um desejo de experienciar distâncias.

Esse percurso por ausências que expressam o desejo de encontro com o outro, o outro-ausência testemunhado por desobjetos também ausentes, evocados apenas pela linguagem que os conforma, chega ao fim quando somos confrontados com o papel. Diante dele, a autora propõe que o olhemos, não a partir de sua superfície, mas que possamos vislumbrar sua profundidade, que tem a espessura mesma do silêncio que há entre a ausência da coisa e sua evocação pela linguagem.

Fabiana Turci nasceu em São Paulo em 1985. É formada em filosofia pela PUC-SP e estuda Letras na USP, onde pesquisa a obra de Maurice Blanchot. Desobjetos é seu primeiro livro, no qual, segundo Menalton Braff, ela "desconstrói seus objetos com as palavras da definição para reconstruí-los como partes de si mesma". Ainda segundo o premiado autor, "o melhor que fazemos é pegar carona com ela para acompanhá-la em suas viagens".

DESOBJETOS

De Fabiana Turci

poesia

Editora_ Ibis Libris

Folheando_80 páginas

O preço do (des)objeto de leitura_R$ 25,00

 

“Desobjetos” será lançado no dia 23 de março, terça-feira, na Livraria Martins Fontes (Av. Paulista, 509), das 18h30 às 21h30.

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