terça-feira, 22 de setembro de 2009

[CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE GANHA SITE]


Carlos Drummond de Andrade, 'o homem que libertou o verso de suas amarras, mas cujo maior talento era a humildade diante da palavra', ganha site


A hora do cansaço

1984 - CORPO


As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.

Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nós cansamos, por um outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto ocre
na boca ou na mente, sei lá, talvez no ar.

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